Aquele corpo
estirado na esquina
repousa sobre a suja calçada
e suja a caminhada daqueles que por ali transitam
Deitado,
indiferente aos passos que atrapalha,
não sabe o dono daquele corpo
o quão inconveniente está a ser
ao forçar os transeuntes a contorná-lo
como se alguém tivesse autoridade
para impedir o ir-e-vir dos outros
Está coberto por um velho pano
que talvez algum dia tivesse sido branco,
mas hoje está amarelo,
provavelmente fétido,
como sugere seu misto
de cores amarronzadas:
uma inadequação de odores!
Além de incomodar os que tentam cruzar a calçada,
aquele corpo fede, e multiplica os desconfortos de quem passa
Imagina se, debaixo daquele tecido, emerge um rosto
que, com um miserável olhar de piedade, balbucia:
“o senhor pode me dar uma ajuda?”
do jeito que as coisas andam
não me surpreenderia com tamanha ousadia!
Os pestilentos acreditam
que sua condição degradada,
embrutecida,
é motivo o suficiente para nos aporrinhar,
seja para pedir moedas,
ou implorar por alguma comida
que suamos para comprar!
desde quando cochilar nos pavimentos,
por longas horas,
enriquece alguém?
não estudei para arrumar um salário
que alimente a preguiça
e estimule a mendicância!
Sem o direito de ser-e-sentir,
ali, no chão, está aquele corpo
na chuva e sol,
dia e noite,
vivo ou morto
o que está mais do que óbvio
é que bloqueia o meu caminho
8 de janeiro de 2013
29 de novembro de 2012
Sobre caules
Perdoem-me os afortunados autossuficientes,
mas não acredito em flores sem caules
que flutuam sobre o nada
a se alimentar, sós, do sol
e independem de água e sal
Do auto-aplauso do auto-didata
que do alto do planalto
conserva o seu orgulho
com reservas em se sentir tocado
Todo fruto vem de dois
ou mais
Sucesso solitário
do ser incapaz
De notar que há braços ao redor
elo que não se desfaz
8 de novembro de 2012
A los que sueñan
Sobre los que sueñan a cada día
y viven como si tuvieran alas
no hago bromas
cuando uno lo hace,
no le veo gracia
Prefiero las tonterías de los que creen
que los corazones no sirven solamente para sangrar;
que los pulmones no tienen que ser agotados como la
caldera de un tren de vapor;
que las manos y piernas de hombres y mujeres no deben ser
tentáculos de un monstruo insaciable
Me encantan ellos que, en sus locuras, se lanzan en
batallas por toda la vida
y persisten confundindo los sueños adormecidos con los
despiertos
24 de outubro de 2012
Argumentos (de um macho) em rima
Não façamos esforços
empilhemos os pratos,
garfos, facas e colheres
amontoemos as roupas
e esperemos o cumprimento,
ofício das mulheres
reclamemos da textura,
do sal, da doçura,
das comidas que preparam
da falta de bruteza
quando achamos
necessária
do excesso de sedução
se julgamos depravada
Esperemos sempre mais
de quem menos tem
tempo
de sorrir, de cantar
as dores que sentem dentro
afinal de contas,
esses são problemas
delas
e das coisas leves
não tratamos:
pisamos, amassamos,
roçamos e desbravamos
tentar entender não
nos cabe
pois isso requer
esforço e tempo
e sem eles não há
possibilidade
14 de agosto de 2012
Sob o colar de pérolas
Entrou como saiu daquele bar: cabisbaixa, soterrada por maquiagem e com um sorriso engatilhado para a primeira pessoa que a percebesse. Já havia passado dos cinquenta. A julgar pelo lugar que frequentava, ainda mantinha acesa a esperança das décadas passadas.
Atravessou a multidão-apática – que parecia sentir euforia em proporção ao volume cada vez mais ensurdecedor da música – e se obrigou a sentar-se à mesa mais isolada do local. Ali fincou seu corpo por cinco, dez, doze, treze, dezesseis, dezoito, dezenove... Vinte minutos e, apesar do colar de pérolas imensas e do vestido que lhe apertava, não conseguiu atrair sequer um olhar distraído. Quando muito ganhou, foi um breve sorriso alheio, fruto de um gesto do acaso.
Enfim, levantou-se da cadeira e, em direção à saída do bar, cruzou despercebidamente as mesas repletas de pessoas – prontas para o atrito, estranhas ao contato –, enquanto carregava sobre os ombros aquele enorme colar de pérolas, meio século de vida marcado em seu rosto e sua solidão.
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