13 de agosto de 2013

Céu-da-terra

Enquanto caminhava
sobre a areia molhada daquela praia
teve uma estupenda descoberta

avistou nas poças d’água
abandonadas pelo mar que recuava
outro céu que até então não havia notado

o céu-da-terra
diferente do habitual
parecia-lhe palpável

cada passo d’água dado
contorcia o arranjo natural das estrelas
e de todos os seres que ali podiam existir

via também que cada poça
representava galáxias diferentes
divididas naquela terra cheia de astros

como pudemos ter demorado tanto a pôr o pé na lua?

10 de julho de 2013

A humanidade das palavras

As palavras estão enlaçadas à humanidade. Caminham juntas a ela e não podem aprisioná-la.

É agradável observar como podemos moldá-las, dando formas e sentidos que ainda não tínhamos experimentado – assim como, quando crianças, brincávamos com as nuvens.

Recentemente a palavra vandalismo sofreu uma chuva de cacetadas e foi sufocada por gás lacrimogênio, se convertendo em algo que faz sangrar quem se atormenta com anemia nas filas de hospitais – desfiladeiros dos moribundos – e se transformando na violência contra quem acredita existirem outras fomes que não a do estômago – literatura e música são nutrientes imprescindíveis para que uma pessoa se torne humana. Assim, vândalo é aquele que crê que os transportes não devem carregar pessoas, mas dinheiro para os bolsos de umas poucas.

O verbo sonhar também ganhou um significado novo. Hoje, é sinônimo de ir às ruas. Exemplo: sonhadores são aqueles que fecham o trânsito e abrem horizontes.

17 de junho de 2013

Em sépia

Hoje, pelas veias da cidade,
não corriam automóveis
com buzinas de cor cinza

escorriam sentimentos
de osso-e-carne
e gritos que, por muito tempo,
estavam encarcerados
em nossos peitos

amassamos nossa fotografia velha
que, em sépia, escondia as cores
de nossos sonhos

nunca vi Maceió tão linda

10 de junho de 2013

Ponto-de-vista

Para as minhocas
os passarinhos não voam
eles aterrissam e decolam arrancando
o que ambicionam em desmedida gula

para as árvores
eles também não têm asas
saltitam de um galho ao outro
em esporádica preguiça

para os peixes
não voam os passarinhos
mas nadam no ar
com suas escamas aerodinâmicas

o voo dos passarinhos é uma questão de ponto-de-vista

4 de maio de 2013

Febril

Quando chegou, você
mostrou que não só o sol pode arder em chamas
alastrou fogo por meus olhos
que lhe miravam
e lhe cercavam os lábios

Quando você comigo esteve
enterrou sementes
que logo se gabaram
em arvoredos,
torrentes
e desejos

Quando você partiu
levou consigo a normalidade das coisas minhas
e o mês que se assentou irrequieto
entre Fevereiro e Abril
                                   febril
vestiu o nome de Saudade