9 de janeiro de 2016

rua nova, rua crescente

as casas viraram escuridão

sem luzes, aparelhos e virtuais distrações
a energia se dissipava dos postes
e desabava nas crianças

elas (es)corriam às ruas
diversão quase cega, cavernosa
a cada passo dado contra o escuro
o esconde-esconde ficava fácil-fácil

os olhos traçavam as formas,
a imaginação se ocupava do resto
não havia minutos melhores pra se mirar os céus

quem saia de casa estrelava

26 de dezembro de 2014

.

Minha pretensão de vida é pequena
não tenho caráter pra emprestar meu nome
pra denominar ruas, tampouco escolas
nem vejo meu corpo numa estátua
que acinzenta as praças de uma parda cidade
sou um ser ínfimo de grandes delírios
me rego por singelas utopias
gosto de estar nos sorrisos das pessoas

25 de novembro de 2014

Elogio à besteira

O desafio era ver quem fazia menos sentido na fala
tecer insensatez era algo estimado por aquelas crianças
fazíamos de conta que éramos doutores em desinteligência
(ou simplesmente esforçávamo-nos em parecer mais idiotas do que realmente éramos)
Diogo gostava de praticar a desgramática
corrigia os dizeres dos outros ao avesso:
“nós foi pular” ou “eu vamos correrem” eram coisas que lhes saiam da cachola
como preciosidades
Mais contido, Matheus não gostava de ofensas excessivas
se incomodava quando palavrões escorriam das bocas dos outros
mas caprichou na desrazão em reclame, revolto:
“tá com uma boquinha sujinha do caralho, né?”
a falta de nexo era o estandarte que os unia
ser abigobal era bem-quisto
eu apreciava obviedades ditas como se tudo
enriquecia a enciclopédia de besteiras com máximas ocas:
salientei com sapiência “a medida que a chuva aumenta, mais água cai”
“esperei 24 horas, mas pareceu um dia” me era motivo de orgulho
apequenado em altura, Victinho tinha grandura em bobagens
atlético, do tipo esquelético, chegou de rua à outra dizendo que
na partida de futebol,  dera uma bicicleta de cabeça
aquilo me trouxe ponderações
não sabia o que queria desdizer
se falava no sentido doador mental
ou se contava no desfigurativo sem chão
fiquei com a segunda

31 de outubro de 2014

Vice-verso

Sou parte do que escrevo
e vice-versa

o girassol se abre ao dia
e vence o verso

a penúria só existe se há riqueza
o denso-inverso

sonhamos tempos sem nobreza
ou vice-clero

da poesia que me toca
vi se verso

da sinfonia que tocamos
em Mi Si Ré Sol

daquele outono que cruzamos
e visse Hélio

do que escrevi e não me enxergo
e vice-verso

29 de setembro de 2014

Tartamudeios IV

Quando tentou me questionar a razão por qual despejei o resto da farinha láctea que estava no meu prato, se sentiu impedido. Talvez uma pedra o engasgasse, ou não tivesse ar o suficiente para lançar as sílabas que lhe faltavam. O que pôde dizer é que não conseguia falar com seu tio... apesar do paradoxo escutado, eu lhe lembrei que ele sempre conversava com mais rapidez do que eu, lhe disse que ficasse tranquilo.

Outra vez, a tentativa não funcionou. Caiam mais pedregulhos? O vento estava tão rarefeito naquela cozinha? Ele não reuniu forças para dizer, porém para começar a chorar. Pouco tempo depois, quando se esqueceu do problema que tinha, expelia todos os tipos: oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas, e enquanto assim seguisse, estava curado dos tartamudeios.