Desde antes
quando o sol era parido por galos
e não por despertadores
ensinaram-me a nutrir-me por sorrisos
16 de julho de 2014
30 de junho de 2014
Escrever
Escrevo pra quem não sabe ler
pras pessoas que só sabem ler as palavras
quando estão soltas no ar
escrevo às pessoas que apreciam self-service
em sacolas abandonadas nas calçadas
nas latas de lixos largadas sobre o concreto
escrevo por quem não pode ler
mas pinta sua história
com aquarelas de cores mortas
escrevo às pessoas abandonadas nas calçadas
largadas ao concreto
que sequer descansarão num túmulo
31 de maio de 2014
Sensatez
Alice tinha propensão pra decalcar horizontes
quando ela escrevia a palavra linha
ela não via só linhas riscadas
numa palavra
enxergava a própria linha escapando pelo papel
transcrevia cachoeira parada
transmutava aquela folha
transvia um escorrega-rela d’água
tivera a ideia, e escrevera gênio-da-lâmpada
e lá estava ele, fugido da folha manuscrita
Alice soltou o hidrocor
e trocou verbo com o gênio
que lhe ofereceu três pedidos
Alice tinha desejos impraticados, que corriam soltos pelo mundo
exigiu três perdidos:
uma boneca com chupeta, um adesivo e um caderno
achei sensato
17 de abril de 2014
Azul lejos
De casa levo ao mundo um azulejo
para mostrar parte do meu lar
tal como faz Benedetti
carrego minha bagagem
meus amigos, vida minha
essa que juntos vivemos
sob as alças daquela
estão as marcas, meus gritos
e todo o mais, que juntos sofremos
quando me pedes "não te esqueces de mim"
te digo: não te preocupes, querida
boas lembranças não guardamos
por si mesmas se guardam
para mostrar parte do meu lar
tal como faz Benedetti
carrego minha bagagem
meus amigos, vida minha
essa que juntos vivemos
sob as alças daquela
estão as marcas, meus gritos
e todo o mais, que juntos sofremos
quando me pedes "não te esqueces de mim"
te digo: não te preocupes, querida
boas lembranças não guardamos
por si mesmas se guardam
27 de março de 2014
Absurdando
As crianças possuem uma visão aguçada para absurdos
uma engenhosidade herdada de passarinhos
Manoel, nutrido por barros de tipos vários
chama os escritos que se nutrem dessas miradas
por absurdez:
aquela menina tinha uma lua nos olhos;
as nuvens são travesseiros pros passarinhos;
meu amigo dá adeus igual ao pôr do sol;
a parede é o chão da catenga;
contra absurdos não há argumentos
pensar desobviedades enaltecia Manoel
uma engenhosidade herdada de passarinhos
Manoel, nutrido por barros de tipos vários
chama os escritos que se nutrem dessas miradas
por absurdez:
aquela menina tinha uma lua nos olhos;
as nuvens são travesseiros pros passarinhos;
meu amigo dá adeus igual ao pôr do sol;
a parede é o chão da catenga;
contra absurdos não há argumentos
pensar desobviedades enaltecia Manoel
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