Era uma vez, numa terra muito distante - que se afastava ainda mais, de acordo com quem a imaginasse -, pessoas que viviam sem contar as horas.
Lá não se criava egoísmo,
cultivava-se mesquinhes,
fabricavam-se salários
nem se plantavam hierarquias
A única privada que persistia era aquela que ocupa função central no banheiro: não havia posses como privilégios de um pequeno número de nobres de sangue azul
- descobrira-se que o sabor de tudo aquilo que se dividia,
além de afastar a fome,
sortia paladares ausentes até das melhores receitas do mundo.
O céu se tornara mais claro, e o escuro das noites mais profundo, como se as pessoas pudessem adentrá-los para escutar novos cantos, desrotinar beijos e regar poesias.
Lá não mais existia o verbo sobreviver,
as pessoas passarinhavam
1 de abril de 2013
11 de março de 2013
Des(amar)rar
Não exija afagos
abraços, nem apelos
o que aperta
não deixa respirar...
proíbe suspiros,
aquilo que amanhece
a surpresa da pele
quero o entardecer
do apelo
p[ê]los
póros.
(escrito a duas mãos com Geice)
5 de fevereiro de 2013
Carro Beh e outras verdades II
Aproveitara tanto o tempo que
quando se apercebeu
já era muito noite
e lá estavam
pingadas
no céu
duas
luas
Já era hora de cobri-las com suas pálpebras
e despedir-se do mundo daquele dia
esperava, quando acordasse noutra manhã,
montar, com seu quebra-cabeças sem encaixes,
novas euforias
quando se apercebeu
já era muito noite
e lá estavam
pingadas
no céu
duas
luas
Já era hora de cobri-las com suas pálpebras
e despedir-se do mundo daquele dia
esperava, quando acordasse noutra manhã,
montar, com seu quebra-cabeças sem encaixes,
novas euforias
17 de janeiro de 2013
Acabou despertare
Acordou com vontade de respirar o sol
abraçar a grama
e guardar seus amados amigos dentro do peito
Mas lembraram-no que ele estava proibido de viver seus sonhos
-pois a vida não é feita para sentir
ensinaram-no em tom conhecedor
"e para que servia então?"
Nunca se encantou com cofres cheios de papéis
que eram mais estimados do que gente
enojava-se com o menosprezo, a indiferença
e as diferenças
não queria um onde no qual todos se parecessem
apenas um quando no qual todos pudessem ser
Foi assim que desaprendeu sua caduca lição
para, algum dia, abraçar o sol
guardar a grama dentro do peito
e respirar seus amigos
amados
8 de janeiro de 2013
O corpo estirado
Aquele corpo
estirado na esquina
repousa sobre a suja calçada
e suja a caminhada daqueles que por ali transitam
Deitado,
indiferente aos passos que atrapalha,
não sabe o dono daquele corpo
o quão inconveniente está a ser
ao forçar os transeuntes a contorná-lo
como se alguém tivesse autoridade
para impedir o ir-e-vir dos outros
Está coberto por um velho pano
que talvez algum dia tivesse sido branco,
mas hoje está amarelo,
provavelmente fétido,
como sugere seu misto
de cores amarronzadas:
uma inadequação de odores!
Além de incomodar os que tentam cruzar a calçada,
aquele corpo fede, e multiplica os desconfortos de quem passa
Imagina se, debaixo daquele tecido, emerge um rosto
que, com um miserável olhar de piedade, balbucia:
“o senhor pode me dar uma ajuda?”
do jeito que as coisas andam
não me surpreenderia com tamanha ousadia!
Os pestilentos acreditam
que sua condição degradada,
embrutecida,
é motivo o suficiente para nos aporrinhar,
seja para pedir moedas,
ou implorar por alguma comida
que suamos para comprar!
desde quando cochilar nos pavimentos,
por longas horas,
enriquece alguém?
não estudei para arrumar um salário
que alimente a preguiça
e estimule a mendicância!
Sem o direito de ser-e-sentir,
ali, no chão, está aquele corpo
na chuva e sol,
dia e noite,
vivo ou morto
o que está mais do que óbvio
é que bloqueia o meu caminho
estirado na esquina
repousa sobre a suja calçada
e suja a caminhada daqueles que por ali transitam
Deitado,
indiferente aos passos que atrapalha,
não sabe o dono daquele corpo
o quão inconveniente está a ser
ao forçar os transeuntes a contorná-lo
como se alguém tivesse autoridade
para impedir o ir-e-vir dos outros
Está coberto por um velho pano
que talvez algum dia tivesse sido branco,
mas hoje está amarelo,
provavelmente fétido,
como sugere seu misto
de cores amarronzadas:
uma inadequação de odores!
Além de incomodar os que tentam cruzar a calçada,
aquele corpo fede, e multiplica os desconfortos de quem passa
Imagina se, debaixo daquele tecido, emerge um rosto
que, com um miserável olhar de piedade, balbucia:
“o senhor pode me dar uma ajuda?”
do jeito que as coisas andam
não me surpreenderia com tamanha ousadia!
Os pestilentos acreditam
que sua condição degradada,
embrutecida,
é motivo o suficiente para nos aporrinhar,
seja para pedir moedas,
ou implorar por alguma comida
que suamos para comprar!
desde quando cochilar nos pavimentos,
por longas horas,
enriquece alguém?
não estudei para arrumar um salário
que alimente a preguiça
e estimule a mendicância!
Sem o direito de ser-e-sentir,
ali, no chão, está aquele corpo
na chuva e sol,
dia e noite,
vivo ou morto
o que está mais do que óbvio
é que bloqueia o meu caminho
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