17 de junho de 2013

Em sépia

Hoje, pelas veias da cidade,
não corriam automóveis
com buzinas de cor cinza

escorriam sentimentos
de osso-e-carne
e gritos que, por muito tempo,
estavam encarcerados
em nossos peitos

amassamos nossa fotografia velha
que, em sépia, escondia as cores
de nossos sonhos

nunca vi Maceió tão linda

10 de junho de 2013

Ponto-de-vista

Para as minhocas
os passarinhos não voam
eles aterrissam e decolam arrancando
o que ambicionam em desmedida gula

para as árvores
eles também não têm asas
saltitam de um galho ao outro
em esporádica preguiça

para os peixes
não voam os passarinhos
mas nadam no ar
com suas escamas aerodinâmicas

o voo dos passarinhos é uma questão de ponto-de-vista

4 de maio de 2013

Febril

Quando chegou, você
mostrou que não só o sol pode arder em chamas
alastrou fogo por meus olhos
que lhe miravam
e lhe cercavam os lábios

Quando você comigo esteve
enterrou sementes
que logo se gabaram
em arvoredos,
torrentes
e desejos

Quando você partiu
levou consigo a normalidade das coisas minhas
e o mês que se assentou irrequieto
entre Fevereiro e Abril
                                   febril
vestiu o nome de Saudade

1 de abril de 2013

Conto de fardos

Era uma vez, numa terra muito distante - que se afastava ainda mais, de acordo com quem a imaginasse -, pessoas que viviam sem contar as horas.

Lá não se criava egoísmo,
cultivava-se mesquinhes,
fabricavam-se salários
nem se plantavam hierarquias

A única privada que persistia era aquela que ocupa função central no banheiro: não havia posses como privilégios de um pequeno número de nobres de sangue azul

- descobrira-se que o sabor de tudo aquilo que se dividia,
além de afastar a fome,
sortia paladares ausentes até das melhores receitas do mundo.

O céu se tornara mais claro, e o escuro das noites mais profundo, como se as pessoas pudessem adentrá-los para escutar novos cantos, desrotinar beijos e regar poesias.

Lá não mais existia o verbo sobreviver,
as pessoas passarinhavam

11 de março de 2013

Des(amar)rar

Não exija afagos
abraços, nem apelos
o que aperta
não deixa respirar...

proíbe suspiros,
aquilo que amanhece
a surpresa da pele

quero o entardecer
do apelo
p[ê]los
póros.


(escrito a duas mãos com Geice)