4 de maio de 2013

Febril

Quando chegou, você
mostrou que não só o sol pode arder em chamas
alastrou fogo por meus olhos
que lhe miravam
e lhe cercavam os lábios

Quando você comigo esteve
enterrou sementes
que logo se gabaram
em arvoredos,
torrentes
e desejos

Quando você partiu
levou consigo a normalidade das coisas minhas
e o mês que se assentou irrequieto
entre Fevereiro e Abril
                                   febril
vestiu o nome de Saudade

1 de abril de 2013

Conto de fardos

Era uma vez, numa terra muito distante - que se afastava ainda mais, de acordo com quem a imaginasse -, pessoas que viviam sem contar as horas.

Lá não se criava egoísmo,
cultivava-se mesquinhes,
fabricavam-se salários
nem se plantavam hierarquias

A única privada que persistia era aquela que ocupa função central no banheiro: não havia posses como privilégios de um pequeno número de nobres de sangue azul

- descobrira-se que o sabor de tudo aquilo que se dividia,
além de afastar a fome,
sortia paladares ausentes até das melhores receitas do mundo.

O céu se tornara mais claro, e o escuro das noites mais profundo, como se as pessoas pudessem adentrá-los para escutar novos cantos, desrotinar beijos e regar poesias.

Lá não mais existia o verbo sobreviver,
as pessoas passarinhavam

11 de março de 2013

Des(amar)rar

Não exija afagos
abraços, nem apelos
o que aperta
não deixa respirar...

proíbe suspiros,
aquilo que amanhece
a surpresa da pele

quero o entardecer
do apelo
p[ê]los
póros.


(escrito a duas mãos com Geice)

5 de fevereiro de 2013

Carro Beh e outras verdades II

Aproveitara tanto o tempo que
quando se apercebeu
já era muito noite
e lá estavam
pingadas
no céu
duas
luas

Já era hora de cobri-las com suas pálpebras
e despedir-se do mundo daquele dia

esperava, quando acordasse noutra manhã,
montar, com seu quebra-cabeças sem encaixes,
novas euforias

17 de janeiro de 2013

Acabou despertare

Acordou com vontade de respirar o sol
abraçar a grama
e guardar seus amados amigos dentro do peito

Mas lembraram-no que ele estava proibido de viver seus sonhos
-pois a vida não é feita para sentir
ensinaram-no em tom conhecedor
"e para que servia então?"

Nunca se encantou com cofres cheios de papéis
que eram mais estimados do que gente
enojava-se com o menosprezo, a indiferença
e as diferenças
não queria um onde no qual todos se parecessem
apenas um quando no qual todos pudessem ser

Foi assim que desaprendeu sua caduca lição
para, algum dia, abraçar o sol
guardar a grama dentro do peito
e respirar seus amigos
amados