31 de maio de 2014

Sensatez

Alice tinha propensão pra decalcar horizontes
quando ela escrevia a palavra linha
ela não via só linhas riscadas
                                            numa palavra
enxergava a própria linha escapando pelo papel

transcrevia cachoeira parada
transmutava aquela folha
transvia um escorrega-rela d’água

tivera a ideia, e escrevera gênio-da-lâmpada
e lá estava ele, fugido da folha manuscrita

Alice soltou o hidrocor
e trocou verbo com o gênio
que lhe ofereceu três pedidos
Alice tinha desejos impraticados, que corriam soltos pelo mundo
exigiu três perdidos:
uma boneca com chupeta, um adesivo e um caderno

achei sensato

17 de abril de 2014

Azul lejos

De casa levo ao mundo um azulejo
para mostrar parte do meu lar
tal como faz Benedetti

carrego minha bagagem
meus amigos, vida minha
essa que juntos vivemos

sob as alças daquela
estão as marcas, meus gritos
e todo o mais, que juntos sofremos

quando me pedes "não te esqueces de mim"
te digo: não te preocupes, querida
boas lembranças não guardamos

por si mesmas se guardam

27 de março de 2014

Absurdando

As crianças possuem uma visão aguçada para absurdos
uma engenhosidade herdada de passarinhos
Manoel, nutrido por barros de tipos vários
chama os escritos que se nutrem dessas miradas
por absurdez:
aquela menina tinha uma lua nos olhos;
as nuvens são travesseiros pros passarinhos;
meu amigo dá adeus igual ao pôr do sol;
a parede é o chão da catenga;

contra absurdos não há argumentos
pensar desobviedades enaltecia Manoel

19 de fevereiro de 2014

Ousadia

Onde abandonaste tua ousadia
que tanto alardeava
aos seres ofuscados?

tua loucura de latir aos cães
de endeusar miseráveis
de mergulhar na vida

de peitar gigantes
menosprezar a realeza
e xingar santidades

tua ousadia
                  querida
essa que deixaste para trás
em algum momento do teu duro caminho
me inspirava voos

-hoje me transpira saudades

25 de janeiro de 2014

Los tartamudeos III

De repente empezaron los murmurios en monótona entonación. Él no podía entender. Por lo menos todavía, cuando daba sus primer pasos. Dijo una vez a su papá que estaba enfermo por no conseguir hablar, mientras este, en reacción, sonrió con su creativa analogía. Pasaban los días y las palabras parecían pesar más en los pulmones, exigiéndole cada vez mayor ímpeto vociferador.

Cierto día, de cuello – somnoliento -, vertió lágrimas cuando el papá insistió que él iba a conseguir hablar lo que se prendió en su garganta.

Otra agua se derramó poco después en aquella noche, y no era la lluvia de las nubes, pero la mía. Y no escurrían por las mejillas, pero se rastreaban cruzando mis entrañas: por donde pasaban llevaban el dolor.