28 de novembro de 2013

Curvilínea

Nada que me sai dessa caneta azul é meu
as curvilinhas
                    que invadem esse papel
não me são próprias

o que hoje sou-estou
não é o que me apetece
mas esse tanto
                       castelo-de-areia onde os grãos são pessoas
com um pouco que penso ter escolha
                                                      minha-eu

nesta tinta que marca um pouco do que vi(vi)
estão diluídas multidões que cruzaram o meu estar aqui
alguns, rostos nítidos
                               outros, silhuetas fuscas
presentes todos nos traços
que minha mão sozinha pinta

2 de novembro de 2013

De pranto

Espera outra hora
outro dia
outra alvorada

adia o que não se pode
desperdiça mais uma noite
com todas suas lufadas

deixa a vida para outro quando
outro ano
outro nunca

o momento deveria ser outro
ignora o agora

te enterra de pronto

6 de outubro de 2013

Escrito sem-gaveta

Não quero escrever versos
que tenham serventia

que se guardem em gavetas
sob poeira e teias

poesia que seja povoada
por ácaros
tártaro
nem pelo abandono

quero-quero escritos sem serventia
                                nem servidão

que tomem emprestados
os dotes alados
de seres como borboletas

e possam ser lar
de ícaros
pássaros
e daquilo que não tem dono

14 de setembro de 2013

Descionário - um esboço da loucura das palavras

(amparado em consultas ao material onírico de Barros e Naranjo)


Amigo (s. m.)

Pessoa que, em dias difíceis de ver o sol,

pinta o céu de azul clarinho;

Condição enferma não abundante e desmedida

que arruína as pessoas
e as torna eternas;

Pintor capaz de lapidar sentimentos

mais coloridos que arco-íris
em corações-de-pedra;


Capitalismo (s. m.)


Ecossistema onde os seres humanos

são menores que a Bolsa
e do que seus próprios bolsos;

Momento da humanidade em que as coisas caminham

se abraçam e respiram
e as pessoas nem;

Forma de reduzir mulheres e homens a utilidades

vide homem-bomba, mulher-de-negócios
homem-chave, primeira-dama etc.;


Solidariedade (s. f.)


Sentimento que engradece pessoas pequenas

e as torna não-maiores
nem menores do que as outras;

Mania de abordar gente como passarinho,

e achar que as pessoas ficam mais magníficas
quando de asas abertas;


Amor (s. m.)


Demência que acomete venturosos

faz primavera no asfalto
e neblina o fim da estrada;

Desastre natural que faz o ser humano

sentir-se parte do jardim do mundo;


Socialismo (s. m.)


Maneira desvariada do ser humano se tornar gente;


Semente de complicado germinar

que se agua com o suor de mulheres e homens
e já produz alegrias e frutos outros
antes de seu total desabrochar;


Sonho (s. m.)


Objeto abstrato que, assim como o horizonte,

quando se tenta tocá-lo
põe-se em perigo a (des)ordem das coisas;

Teimosia que faz as pessoas pensarem

que podem caminhar sobre as nuvens;


Abraço (s. m.)


Medicamento recomendado contra a melancolia

e os sintomas que dessa decorrem;

Item do gestuário humano

que mais aproxima, cordialmente, as pessoas;

Procedimento utilizado para deixar marcas na roupa

e no espírito alheio;

13 de agosto de 2013

Céu-da-terra

Enquanto caminhava
sobre a areia molhada daquela praia
teve uma estupenda descoberta

avistou nas poças d’água
abandonadas pelo mar que recuava
outro céu que até então não havia notado

o céu-da-terra
diferente do habitual
parecia-lhe palpável

cada passo d’água dado
contorcia o arranjo natural das estrelas
e de todos os seres que ali podiam existir

via também que cada poça
representava galáxias diferentes
divididas naquela terra cheia de astros

como pudemos ter demorado tanto a pôr o pé na lua?