Receio
de me tornar aquilo que combato
Justificando falhas
em confortável distância dos fatos
A cada passo no raso
rio do desejo
Me revelo frágil
inapto
O que fazer quando a sede não cabe no copo?
Alimentar a chaga das que choram
Exercer domínio em nome da liberdade
aplaudir de pé tamanha debilidade
Se viver
significar insensível ser
Reificar
nosso querer esmagando corpos
Que respiram
por corações repletos de calos
Felicidade
é contradição sem os dois lados
Receio
mais uma noite em claro
Realçando diferenças
ela, prisão; eu, falo
Com toda frieza
esconderijo árduo
Indiferente, planejo
outro ato
O que fazer quando o rio não cabe no copo?
Afogar suspiros que imploram
Vivenciar prazer apesar da crueldade
aplaudir de pé como se fosse caridade
Se viver
é contradição sem os dois lados
Reificar
por corações repletos de calos
Que respiram
nosso querer esmagando corpos
Felicidade
significar insensível ser
8 de março de 2016
9 de janeiro de 2016
rua nova, rua crescente
as casas viraram escuridão
sem luzes, aparelhos e virtuais distrações
a energia se dissipava dos postes
e desabava nas crianças
elas (es)corriam às ruas
diversão quase cega, cavernosa
a cada passo dado contra o escuro
o esconde-esconde ficava fácil-fácil
os olhos traçavam as formas,
a imaginação se ocupava do resto
não havia minutos melhores pra se mirar os céus
quem saia de casa estrelava
26 de dezembro de 2014
.
Minha pretensão de vida é pequena
não tenho caráter pra emprestar meu nome
pra denominar ruas, tampouco escolas
nem vejo meu corpo numa estátua
que acinzenta as praças de uma parda cidade
sou um ser ínfimo de grandes delírios
me rego por singelas utopias
gosto de estar nos sorrisos das pessoas
25 de novembro de 2014
Elogio à besteira
O desafio era ver quem fazia menos sentido na fala
tecer insensatez era algo estimado por aquelas crianças
fazíamos de conta que éramos doutores em desinteligência
(ou simplesmente esforçávamo-nos em parecer mais idiotas do que realmente éramos)
Diogo gostava de praticar a desgramática
corrigia os dizeres dos outros ao avesso:
“nós foi pular” ou “eu vamos correrem” eram coisas que lhes saiam da cachola
como preciosidades
Mais contido, Matheus não gostava de ofensas excessivas
se incomodava quando palavrões escorriam das bocas dos outros
mas caprichou na desrazão em reclame, revolto:
“tá com uma boquinha sujinha do caralho, né?”
a falta de nexo era o estandarte que os unia
ser abigobal era bem-quisto
eu apreciava obviedades ditas como se tudo
enriquecia a enciclopédia de besteiras com máximas ocas:
salientei com sapiência “a medida que a chuva aumenta, mais água cai”
“esperei 24 horas, mas pareceu um dia” me era motivo de orgulho
apequenado em altura, Victinho tinha grandura em bobagens
atlético, do tipo esquelético, chegou de rua à outra dizendo que
na partida de futebol, dera uma bicicleta de cabeça
aquilo me trouxe ponderações
não sabia o que queria desdizer
se falava no sentido doador mental
ou se contava no desfigurativo sem chão
fiquei com a segunda
tecer insensatez era algo estimado por aquelas crianças
fazíamos de conta que éramos doutores em desinteligência
(ou simplesmente esforçávamo-nos em parecer mais idiotas do que realmente éramos)
Diogo gostava de praticar a desgramática
corrigia os dizeres dos outros ao avesso:
“nós foi pular” ou “eu vamos correrem” eram coisas que lhes saiam da cachola
como preciosidades
Mais contido, Matheus não gostava de ofensas excessivas
se incomodava quando palavrões escorriam das bocas dos outros
mas caprichou na desrazão em reclame, revolto:
“tá com uma boquinha sujinha do caralho, né?”
a falta de nexo era o estandarte que os unia
ser abigobal era bem-quisto
eu apreciava obviedades ditas como se tudo
enriquecia a enciclopédia de besteiras com máximas ocas:
salientei com sapiência “a medida que a chuva aumenta, mais água cai”
“esperei 24 horas, mas pareceu um dia” me era motivo de orgulho
apequenado em altura, Victinho tinha grandura em bobagens
atlético, do tipo esquelético, chegou de rua à outra dizendo que
na partida de futebol, dera uma bicicleta de cabeça
aquilo me trouxe ponderações
não sabia o que queria desdizer
se falava no sentido doador mental
ou se contava no desfigurativo sem chão
fiquei com a segunda
31 de outubro de 2014
Vice-verso
Sou parte do que escrevo
e vice-versa
o girassol se abre ao dia
e vence o verso
a penúria só existe se há riqueza
o denso-inverso
sonhamos tempos sem nobreza
ou vice-clero
da poesia que me toca
vi se verso
da sinfonia que tocamos
em Mi Si Ré Sol
daquele outono que cruzamos
e visse Hélio
do que escrevi e não me enxergo
e vice-verso
29 de setembro de 2014
Tartamudeios IV
Quando tentou me questionar a razão por qual despejei o resto da farinha láctea que estava no meu prato, se sentiu impedido. Talvez uma pedra o engasgasse, ou não tivesse ar o suficiente para lançar as sílabas que lhe faltavam. O que pôde dizer é que não conseguia falar com seu tio... apesar do paradoxo escutado, eu lhe lembrei que ele sempre conversava com mais rapidez do que eu, lhe disse que ficasse tranquilo.
Outra vez, a tentativa não funcionou. Caiam mais pedregulhos? O vento estava tão rarefeito naquela cozinha? Ele não reuniu forças para dizer, porém para começar a chorar. Pouco tempo depois, quando se esqueceu do problema que tinha, expelia todos os tipos: oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas, e enquanto assim seguisse, estava curado dos tartamudeios.
Outra vez, a tentativa não funcionou. Caiam mais pedregulhos? O vento estava tão rarefeito naquela cozinha? Ele não reuniu forças para dizer, porém para começar a chorar. Pouco tempo depois, quando se esqueceu do problema que tinha, expelia todos os tipos: oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas, e enquanto assim seguisse, estava curado dos tartamudeios.
29 de agosto de 2014
Descionário II - palarvas se nutrem de céu
(regado por levezas de Larissa, Isaac e outros passarinhos)
Chorar (v. t. d.)
Estar cachoeira;
Coração (s. m.)
Cofre que armazena carinhos
vitalícios;
Dinheiro (s. m.)
Coisa feita para (des)gastar
a humanidade;
Unidade intercambiável que
quando em movimento
empobrece preciosidades;
Ilha (s. f.)
Pessoa continente
propensa a reclusão;
Aquele que rejeita a grandeza
do (re)mar;
Solidão consolidada num só;
Liberdade (s. f.) – I
Algo que não se tem
lago que só se sente;
Insistência em voar
sem asas;
Inadequação de gente
às grades e lajes
[como o dinheiro];
Modo de ser pleno
sem caber em planos;
Voar com capricho e sem interesse de ostentar
as plumas;
Raiar sem temer
as noites;
Liberdade (s. f.) – II
Devaneio inventado por passarinhos;
Desobjeto que amedronta cárceres
e inspira lagartas;
Motivo e consequência de todo ser
que se deseja passarinho;
Lua (s. f.)
Aquilo que proíbe
a plena escuridão da noite;
Ser astral excepcional
que ora sorri, ora está cheia
e ora se entristece por ser solidão;
Música (s. f.)
Poesia escrita a sons;
Dissonância rearranjada
por coração desatinado;
Batimentos cardíacos arranjados;
Ruído recorrente em grilos, riachos, sabiás
que, por vezes, transborda em bípedes;
Passarinho (s. m.)
Pessoa com inclinação para o azul;
Espécie tão mais necessária
quanto mais rareada;
Ser vivo com aptidão para poesia
e que se ornamenta em alturas;
Lar de horizontes;
Aquilo que engradece árvores;
Entidade anômala pela qual
se luta, se mata, se morre
e se nasce;
Indivíduo que, em livros de história,
escreve raios-de-sol;
Saudade (s. f.)
Encantamento que aproxima o longínquo;
Espasmo cerebral decorrente
de afagos à alma;
Quando se é Outono
sem cair folhas e flores;
Agasalho tecido por fios de doces memórias;
Solidão (s. f.)
Estar povoado pelo abandono;
Ter um deserto
dentro do peito;
Sorriso (s. m.)
Contração muscular mímica;
Orifício facial intermitente
derivado de carinho perene;
Néctar que alimenta passarinhos;
Vitamina recomendada contra a tristeza
e outras feridas;
Quando a alegria não cabe no corpo
e transborda pela boca;
Tempo (s. m.)
Aquilo que gira ponteiros;
Pandemia que enferruja seres inanimados
e (des)animados;
Mal que erradica bens
bem que extirpa males;
Verme (s. m.)
Trapo rastejante que as pessoas creem exaltar
quando praticam caridades;
Pessoa que é conhecida por ser nada
mas que se culpa por tudo;
Viver (v. i. e transitório)
Estar passarinho;
Beber goles de céu;
Decurso temporal
esporádico ou inexistente
no estar das pessoas
obs.: seu antônimo não é morrer, mas desviver;
16 de julho de 2014
Desde antes
Desde antes
quando o sol era parido por galos
e não por despertadores
ensinaram-me a nutrir-me por sorrisos
quando o sol era parido por galos
e não por despertadores
ensinaram-me a nutrir-me por sorrisos
30 de junho de 2014
Escrever
Escrevo pra quem não sabe ler
pras pessoas que só sabem ler as palavras
quando estão soltas no ar
escrevo às pessoas que apreciam self-service
em sacolas abandonadas nas calçadas
nas latas de lixos largadas sobre o concreto
escrevo por quem não pode ler
mas pinta sua história
com aquarelas de cores mortas
escrevo às pessoas abandonadas nas calçadas
largadas ao concreto
que sequer descansarão num túmulo
31 de maio de 2014
Sensatez
Alice tinha propensão pra decalcar horizontes
quando ela escrevia a palavra linha
ela não via só linhas riscadas
numa palavra
enxergava a própria linha escapando pelo papel
transcrevia cachoeira parada
transmutava aquela folha
transvia um escorrega-rela d’água
tivera a ideia, e escrevera gênio-da-lâmpada
e lá estava ele, fugido da folha manuscrita
Alice soltou o hidrocor
e trocou verbo com o gênio
que lhe ofereceu três pedidos
Alice tinha desejos impraticados, que corriam soltos pelo mundo
exigiu três perdidos:
uma boneca com chupeta, um adesivo e um caderno
achei sensato
17 de abril de 2014
Azul lejos
De casa levo ao mundo um azulejo
para mostrar parte do meu lar
tal como faz Benedetti
carrego minha bagagem
meus amigos, vida minha
essa que juntos vivemos
sob as alças daquela
estão as marcas, meus gritos
e todo o mais, que juntos sofremos
quando me pedes "não te esqueces de mim"
te digo: não te preocupes, querida
boas lembranças não guardamos
por si mesmas se guardam
para mostrar parte do meu lar
tal como faz Benedetti
carrego minha bagagem
meus amigos, vida minha
essa que juntos vivemos
sob as alças daquela
estão as marcas, meus gritos
e todo o mais, que juntos sofremos
quando me pedes "não te esqueces de mim"
te digo: não te preocupes, querida
boas lembranças não guardamos
por si mesmas se guardam
27 de março de 2014
Absurdando
As crianças possuem uma visão aguçada para absurdos
uma engenhosidade herdada de passarinhos
Manoel, nutrido por barros de tipos vários
chama os escritos que se nutrem dessas miradas
por absurdez:
aquela menina tinha uma lua nos olhos;
as nuvens são travesseiros pros passarinhos;
meu amigo dá adeus igual ao pôr do sol;
a parede é o chão da catenga;
contra absurdos não há argumentos
pensar desobviedades enaltecia Manoel
uma engenhosidade herdada de passarinhos
Manoel, nutrido por barros de tipos vários
chama os escritos que se nutrem dessas miradas
por absurdez:
aquela menina tinha uma lua nos olhos;
as nuvens são travesseiros pros passarinhos;
meu amigo dá adeus igual ao pôr do sol;
a parede é o chão da catenga;
contra absurdos não há argumentos
pensar desobviedades enaltecia Manoel
19 de fevereiro de 2014
Ousadia
Onde abandonaste tua ousadia
que tanto alardeava
aos seres ofuscados?
tua loucura de latir aos cães
de endeusar miseráveis
de mergulhar na vida
de peitar gigantes
menosprezar a realeza
e xingar santidades
tua ousadia
querida
essa que deixaste para trás
em algum momento do teu duro caminho
me inspirava voos
-hoje me transpira saudades
que tanto alardeava
aos seres ofuscados?
tua loucura de latir aos cães
de endeusar miseráveis
de mergulhar na vida
de peitar gigantes
menosprezar a realeza
e xingar santidades
tua ousadia
querida
essa que deixaste para trás
em algum momento do teu duro caminho
me inspirava voos
-hoje me transpira saudades
25 de janeiro de 2014
Los tartamudeos III
De repente empezaron los murmurios en monótona
entonación. Él no podía entender. Por lo menos todavía, cuando daba sus primer
pasos. Dijo una vez a su papá que estaba enfermo por no conseguir hablar,
mientras este, en reacción, sonrió con su creativa analogía. Pasaban los días y
las palabras parecían pesar más en los pulmones, exigiéndole cada vez mayor
ímpeto vociferador.
Cierto día, de cuello – somnoliento -, vertió
lágrimas cuando el papá insistió que él iba a conseguir hablar lo que se
prendió en su garganta.
Otra agua se derramó poco después en aquella
noche, y no era la lluvia de las nubes, pero la mía. Y no escurrían por las
mejillas, pero se rastreaban cruzando mis entrañas: por donde pasaban llevaban
el dolor.
18 de dezembro de 2013
Poema-faísca
O mundo está em trevas, é verdade
mas tens criado sombras em demasia
em tua cabeça cheia
aquilo que teus olhos não tocam
te asfixia com interrogações
não tornes o medo teu pão de cada manhã
a ansiedade a bússola pra cada passo teu
nem a angústia um travesseiro
a sustentar tua consciência, que pesa
o agora é ameaça: “me espreita, se aproxima, me ataca”
mas não aniquila
viver é um verbo que não se mistura com a morte
abandona essa penumbra que te envolve
a cada esquina da tua vida
28 de novembro de 2013
Curvilínea
Nada que me sai dessa caneta azul é meu
as curvilinhas
que invadem esse papel
não me são próprias
o que hoje sou-estou
não é o que me apetece
mas esse tanto
castelo-de-areia onde os grãos são pessoas
com um pouco que penso ter escolha
minha-eu
nesta tinta que marca um pouco do que vi(vi)
estão diluídas multidões que cruzaram o meu estar aqui
alguns, rostos nítidos
outros, silhuetas fuscas
presentes todos nos traços
que minha mão sozinha pinta
2 de novembro de 2013
De pranto
Espera outra hora
outro dia
outra alvorada
adia o que não se pode
desperdiça mais uma noite
com todas suas lufadas
deixa a vida para outro quando
outro ano
outro nunca
o momento deveria ser outro
ignora o agora
te enterra de pronto
6 de outubro de 2013
Escrito sem-gaveta
Não quero escrever versos
que tenham serventia
que se guardem em gavetas
sob poeira e teias
poesia que seja povoada
por ácaros
tártaro
nem pelo abandono
quero-quero escritos sem serventia
nem
servidão
que tomem emprestados
os dotes alados
de seres como borboletas
e possam ser lar
de ícaros
pássaros
e daquilo que não tem dono
14 de setembro de 2013
Descionário - um esboço da loucura das palavras
(amparado em consultas ao material onírico de Barros e Naranjo)
Pessoa que, em dias difíceis de ver o sol,
pinta o céu de azul clarinho;
Condição enferma não abundante e desmedida
que arruína as pessoas
e as torna eternas;
Pintor capaz de lapidar sentimentos
mais coloridos que arco-íris
em corações-de-pedra;
Capitalismo (s. m.)
Ecossistema onde os seres humanos
são menores que a Bolsa
e do que seus próprios bolsos;
Momento da humanidade em que as coisas caminham
se abraçam e respiram
e as pessoas nem;
Forma de reduzir mulheres e homens a utilidades
vide homem-bomba, mulher-de-negócios
homem-chave, primeira-dama etc.;
Solidariedade (s. f.)
Sentimento que engradece pessoas pequenas
e as torna não-maiores
nem menores do que as outras;
Mania de abordar gente como passarinho,
e achar que as pessoas ficam mais magníficas
quando de asas abertas;
Amor (s. m.)
Demência que acomete venturosos
faz primavera no asfalto
e neblina o fim da estrada;
Desastre natural que faz o ser humano
sentir-se parte do jardim do mundo;
Socialismo (s. m.)
Maneira desvariada do ser humano se tornar gente;
Semente de complicado germinar
que se agua com o suor de mulheres e homens
e já produz alegrias e frutos outros
antes de seu total desabrochar;
Sonho (s. m.)
Objeto abstrato que, assim como o horizonte,
quando se tenta tocá-lo
põe-se em perigo a (des)ordem das coisas;
Teimosia que faz as pessoas pensarem
que podem caminhar sobre as nuvens;
Abraço (s. m.)
Medicamento recomendado contra a melancolia
e os sintomas que dessa decorrem;
Item do gestuário humano
que mais aproxima, cordialmente, as pessoas;
Procedimento utilizado para deixar marcas na roupa
e no espírito alheio;
13 de agosto de 2013
Céu-da-terra
Enquanto caminhava
sobre a areia molhada daquela praia
teve uma estupenda descoberta
avistou nas poças d’água
abandonadas pelo mar que recuava
outro céu que até então não havia notado
o céu-da-terra
diferente do habitual
parecia-lhe palpável
cada passo d’água dado
contorcia o arranjo natural das estrelas
e de todos os seres que ali podiam existir
via também que cada poça
representava galáxias diferentes
divididas naquela terra cheia de astros
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